COMO AMAR UM HOMEM QUE PEIDA?

 

  DIÁRIO DE UMA FEMINISTA RECÉM-CASADA

 COMO AMAR UM HOMEM QUE PEIDA?

Olá. Bem vinda ao meu matrimonio!

Na verdade não sou documentalmente casada, sou o que os brasileiros chamam de amasiada, moro com meu companheiro há três anos, como acho feia essa palavra “amasia”, comumente me refiro ao meu companheiro como “namorado”. Gosto de chama-lo de “namorado” também, porque isso me faz parecer jovem ainda, e passa a impressão que eu ainda estou presente no jogo dos flertes (risos).

Ontem eu estava me arrumando para deitar, ajeitando o cabelo, me perfumando… Pois claro a minha intenção não era dormir, eu estou na minha semana fértil (risos), e  portanto,  estava cheia de expectativas. Enquanto eu me enchia de expectativas, o meu “namorado” se enchia de gases, escutei um pum… depois outro e… outro…E o meu desejo foi broxando a cada pum que eu escutava! E, então eu me perguntei:” Como amar um homem que peida?” Já viram aquela página “Desintoxicação do romantismo”? Preciso falar para elas “amigas, nada desintoxica melhor a gente de romantismo, do que a vida a dois”. Você vai vendo lentamente o seu “príncipe” virar um porco gordo.

Claro, todos os seres humanos soltam gases! Mas precisa dividir isso? Eu não tenho coragem de peidar alto nem quando estou sozinha, eu solto pum com discrição até perto de mim mesma. Os homens não! Eles peidam e riem disso. Disputam entre eles para ver quem peida mais fedido…   Já conheci mulheres que tiveram problemas de saúde por segurarem o pum por muito tempo. Bom, então não sou só eu que tenho problemas com o assunto, “graças a deus” (sou ateia, mas adoro essa expressão, adoro jogar a culpa dos meus problemas numa entidade metafisica) não corro o risco de ser vista aqui como uma garotinha fresca  que não solta pum (ou pelo menos a única).

Mas, por que as mulheres “não soltam pum” e os homens soltam sem discrição, vergonha ou arrependimento nenhum? Machismo, machismo, MACHISMO novamente! Tanto para minha vergonha, em perceber que eu sou apenas um mero ser humano que peida e caga , e não aquela princesa perfeita que está sempre bela e cheirosa. Tanto para a falta de vergonha dele, que acha engraçado e másculo dividir seu cheiro com as pessoas. Nossa cultura patriarcal e machista nos impõe uma feminilidade que nega nossa natureza. A nossa feminilidade é um conjunto de  negações: de nossos desejos sexuais, de nossos pelos, de nossa força física, de nossos fluidos, de nossos cheiros…  Do nosso corpo em si, que deve ser controlado e disciplinado.  Feminilidade é controle, é vigilância constante sobre nosso corpo, pensamento e de nossos atos.  Enquanto masculinidade é o oposto de tudo isso. Um homem deve ter desejos incontroláveis, manter seus pelos a qualquer custo, ser faminto,  ser  agressivo…ou seja, não exercer controle sobre seu corpo e seus instintos! Ser homem é basicamente não ter controle, apenas se deixar ser.

Há uma grande tolerância em relação ao comportamento esdruxulo deles, tolerância essa que começa na infância e vai se afirmando por toda uma vida. Enquanto a base da educação feminina é o engessamento de  impulsos, de  expressão, de desejos…que também começam na infância e vão se  afirmando por toda uma vida.

Como resolver isso então… Começo eu a peidar ou peço a ele para deixar de peidar? Se eu começar a peidar ele vai continuar me amando? Seu pau vai enrijecer ao ouvir e sentir o cheiro do meu intestino? São questões complexas que surgem no dia-a-dia de um casal (risos).

Nunca refleti tanto sobre o feminismo quanto agora com este “namorado”.  A vida conjugal é uma batalha feminista árdua. Romper com o machismo que há em nós, fazer o companheiro ver e compreender o machismo que há em nossa relação, tudo isso enquanto corro do trabalho para casa, faço arroz e tento ler Simone de Beauvoir…

Só sei que nesse dia eu broxei mesmo, eu não estou conseguindo lidar com isso (risos). Ia fazer uma surpresa erótica para ele, mas achei melhor esperar o intestino dele melhorar.

Aguardando ansiosamente.